sexta-feira, 16 de maio de 2014


UM SONHO DE MENINA

Tempos de sonhos. De bonecas.
Fantasias de uma criança sensível demais.
Acreditei em todas as mentiras.
Persegui o arco-íris.
Corri atrás de borboletas e esbarrei em realidades absurdas e incontestáveis.
Por que a vida não podia ser como eu a havia imaginado? Por quê? Por quê?
Vivi uma vida me perguntando o “por que”.
Vivi uma vida contemplando um sonho de menina.
Até um dia em que descobri que não há limites entre a realidade e o sonho, desde que acreditemos.
Não havia possibilidade de apagar o passado, não havia como apagar as minhas pegadas.
Só havia uma maneira de recomeçar tudo de novo sem consertar os erros cometidos.
Era só traçar uma nova reta, imaginar um novo ponto de partida e deixar guardado o passado.
Foi o que fiz, recomecei do nada, juntei

sonia delsin


UM SINO... UMA MANHÃ... UMA RUA

A chuva da noite lavou a rua.
Eu seguia pelas calçadas e notava os paralelepípedos límpidos. A chuva os tinha lavado.
As árvores estavam frescas e as casas muito úmidas.
Andava por um bairro antigo da cidadezinha onde nasci.
O silêncio me invadia e pela rua refletindo eu seguia.
De repente badaladas interromperam a quietude da manhã.
Foram sete as badaladas.
Os sons eram os do sino e dos meus passos na calçada.
Eu e Eu a conversar. A dialogar naquela manhã que começava a acordar.
O som metálico me parecia retumbar mesmo depois de silenciar.
Recordava-me outro tempo. Outro lugar.

Meu cérebro quer tudo registrar e meu coração tudo guardar...

sonia delsin  


BROTO DE BAMBU

Meu tio dizia que era entendido.
Por que não lhe dar ouvido?
Ele nos prometeu que prepararia uma iguaria que todos iriam se deliciar.
Quantos anos eu tinha?
Acredito que uns sete, oito no máximo.
Não esqueci o fato e aqui eu relato.
Era lindo este meu tio. Ele se casara com minha tia e o considerávamos muito. Muito mesmo.
Ele era lindo, divertido.
Como sempre senti a falta dele. Ele morreu há mais de vinte e cinco anos, mas parece que o vejo ainda à minha frente.
Recordo seus olhos castanhos, seu olhar inteligente.
Ele brincava muito com a gente.

Bem, vamos ao broto de bambu. Era isso que ele falou que prepararia e preparou. Mas só que o fez com o bambu errado ou sei lá o que se passou porque a iguaria de iguaria não tinha nada. Resultou num alimento amargo que ninguém foi capaz de engolir.

sonia delsin 


LUTO.... DEUS, QUE TRISTEZA!

Estes dias eu queria toda hora estar vendo os noticiários na TV e na net. Ficava acompanhando as competições do Pan. Cada medalha que um atleta recebia, eu me emocionava.
Ontem entrei para ler um pouco quando vi anunciado o acidente aéreo no aeroporto de Congonhas. Coisa pavorosa.
Minha mãe que via TV veio me procurar para contar. Ficamos as duas acompanhando os noticiários. Comentei com ela que cada passageiro já devia ter dito para si mesmo: cheguei são e salvo. Afinal já estavam dentro do aeroporto.
Deus, nós, os brasileiros, estamos de luto. Que tristeza. Que tristeza! Quantas mortes.
Hoje nem sinto vontade mais de acompanhar os acontecimentos dos jogos pan-americanos. Meu coração dói por cada pessoa que perdeu um ente querido. Por cada pessoa que partiu...
Tem hora que nos revolta. Estamos de mãos amarradas. Impotentes diante dos fatos.
Por que tudo isso tem que acontecer? Podia ser evitado?

Fazemos tantas perguntas e as respostas não chegam (na verdade chegam). Mais e mais notícias chegam através da mídia e nos atordoam. O coração quase nem aguenta tanta tragédia. Tanta coisa ruim acontecendo...

sonia delsin 


AMOR QUANDO CHEGA

O amor quando chega tem o dom de colorir o nosso mundo.
Eu conheci nestes tempos um senhor. Ele me falou logo que nos conhecemos que era uma pessoa triste e que a depressão estava acabando com ele.
Este senhor tem setenta e cinco anos e é um músico. Sempre me pareceu extremamente sensível.
Há duas semanas ele conheceu uma senhora que estava também se sentindo muito sozinha e os dois iniciaram um namoro.
Vejo-os sempre a dançar e estão sempre sorridentes.
Ontem eu o encontrei na piscina. Ele estava sozinho e começamos a conversar.
Contou-me então que o fato de estar namorando está deixando-o feliz demais e que se sente como um menino de novo.
Falei que isto é muito bom. E é mesmo. O amor tem o dom também de nos remoçar.
Fiquei muito contente em ouvi-lo. Sempre me alegro com a felicidade dos outros.

É, o amor é lindo e não tem tempo pra acontecer. Não tem idade o amor.

sonia delsin 


O NINHO DE SABIÁ NA JANELA

Têm coisas que não se explicam. Outras que se explicam. Têm coisas que nos levam a refletir. Respostas chegam prontas.
Mas nem todos têm a percepção para notar a mensagem oferecida.
Tantos fatos mexem com nossa vida.
Quando meu filho foi conhecer o apartamento que comprou notou que na janela do quarto que seria o seu e da esposa havia um ninho na janela. Um ninho de sabiá.
Aquele fato o tocou profundamente, pois sempre foi sabido em nossa família que meu falecido pai era louco por esta ave.
E completamente apaixonado por este meu filho.
Espiávamos os ovinhos, depois os filhotinhos. Os pais cuidando deles era a coisa mais linda de se ver, pois existia uma dedicação sem tamanho.
Em poucos dias voaram.
Estão sempre cantando pela redondeza e podemos apreciar.
Para mim é um sinal de bom agouro este ninho na janela.
Acho que as aves vieram trazer paz e alegria aos meus queridos.

Eu já tinha visto pássaros fazerem ninhos em vasos de flores, em sacadas, mas nunca numa janela foi a primeira vez.

sonia delsin 


AS BARREIRAS DO TEMPO

Podem dizer que é utopia. Que isto não existe. Não me importo que o digam.
Eu acredito. Acredito em portas que se abrem misteriosamente e trazem para o nosso cotidiano o passado que ficou tão distante.
Era uma manhã qualquer; nem era manhã ainda; era madrugada. Aurora pra ser mais exata.
Levantei-me como os sonâmbulos o fazem e nem o sabem que estão fazendo.
Olhei num espelho e vi uma imagem lá dentro.
Alguém que já tinha estado comigo num outro tempo.
Fantasia?
O que pode ser maior que o sonho?
O acreditar nele, talvez.
Pois bem. Passei algum tempo diante da imagem e ela falou comigo. Sem palavras audíveis, mas plausíveis.
Foi pura telepatia aquilo, mas existiu. Eu garanto que sim. Investi cem por cento do meu querer naquele acontecimento.
E não era coisa de momento.
Não era passatempo, entretenimento.
Nada disso. Era algo verdadeiro. Era algo que serviria pra me reformar por inteiro.
Nós dois sabíamos que estávamos vivendo uma magia maluca. Algo antigo; enterrado; morto; passado. Era como se fosse um destes feitiços que não entendemos como se começa e como se acaba.
Se é que se acaba algum dia...
Vencemos a barreira do tempo; do imaginário. Daquilo que se afirma cientificamente que não existe.
Mas que existe sim e mesmo que não se explique tem toda a razão para existir.
Conseguimos trazer de volta o éter de outros tempos. Concretizamos o abstrato.
E hoje eu lhe digo. Que aurora aquela! Que aurora!

Não há cortinas, não há véus... que consigam ocultar outros céus.

sonia delsin 


TÃO IMPORTANTE, PORÉM...


Ela sentia-se tão só naquele dia. Nada conseguia alegrá-la, motivá-la. As folhas de papel amarrotadas já não cabiam na lixeira.
Nada que escrevia parecia estar bom e ela não conseguia achar um caminho para voltar a escrever.
Era uma escritora fracassada?
Não era nada? Tinha ido embora de si a alma enorme que corria o mundo em segundos? A alma que sabia buscar as sensações do universo?
As letras na telinha não tinham a mesma importância de antes. Desistia do teclado, tentava novamente preencher folhas de papel.
Não conseguia colocar os sentimentos ali, o coração.
Tudo acabado?
Não, isso não podia estar acontecendo com ela.
Escrever sempre fora a sua maior alegria na vida.
Por que o poeta perde a inspiração?
Recordou a cara lavada do palhaço. Ela o conheceu no palco e o amou intensamente. No camarim o viu de cara limpa e as lágrimas daquele homem a comoveram.
Por que o palhaço perde o riso?
Por que o mundo lhe tirara o dom de escrever?
Ou era só uma fase negra?
Ela não conseguia lembrar de si mesma sem estar fantasiando, imaginando. Criando histórias...
E sempre conseguira transferi-las para o papel.
Não, não podia deixar desmantelar-se sua alma desta forma.
O que lhe sobraria se a inspiração fosse embora de vez?
Todos aqueles anos guardados. A emoção na ponta dos dedos. Tantas palavras, tantas frases. Tanto sentimento ali.
Não, ela não seria mais nada se a inspiração fosse embora.
Mas no fundo sabia que não aconteceria com ela...
Não... era só uma fase... só uma fase ruim... logo estaria enchendo as folhas de papel, os arquivos do Word porque a alma sensível que trazia dentro de si não se perderia jamais.

sonia delsin 


A MULHER QUE TODO HOMEM SONHA

Conheci Gabi nos meus verdes anos, quando temos ilusões de que somos os donos do mundo.
Gabi entrou na minha vida como um furacão, varreu todos os meus sonhos e me mostrou toda a realidade da vida.
Ela era linda com seus cabelos ruivos, olhos esverdeados, lábios carnudos e nariz levemente arrebitado. E o corpo então! Que corpo tinha aquela mulher!
E a voz rouca me prometendo tudo enquanto se esquivava de mim como se eu fosse contaminá-la com meu antagonismo.
Reformei todos os meus porões interiores para que aflorasse em mim o homem que ela esperava que eu fosse.
Robotizei-me confesso, querendo aparentar o que nem de longe conseguia ser.
Pra quê?
Se Gabi saiu de minha vida como se nunca tivesse entrado.
Quantas marcas aquela mulher deixou em mim! Quantas cicatrizes no meu ego!
Conheci pelos meus caminhos outras mulheres, algumas tão doces e meigas, outras ainda mais bonitas que Gabi.
Mas nenhuma delas conseguiu mexer tanto comigo porque ela era a mulher que todo homem sonha encontrar um dia.


sonia delsin 


“FUSÃO DE DUAS ERAS”

Eu caminhava como costumo fazer todas as manhãs quando vi algo inédito que me chamou bastante a atenção.
Passou por mim uma carroça puxada por um burro e nela um jovem estava sentado a conversar.
Sim, com uma mão ele guiava o burro pelas ruas e com a outra ele segurava um moderno aparelho celular junto à orelha.
Falava alto e ouvi parte da conversa.
Ele combinava uma entrega de material de construção para aquela tarde.
Fiquei pensando.
É a fusão de duas eras.
Da antiguidade e da modernidade.
Os cascos do burro faziam o barulhinho peculiar e a voz do jovem se perdia na manhã...
É, os tempos mudaram...
Quando se pensaria anos atrás que uma pessoa poderia carregar consigo um telefone?
Nossa! Nem telefone existia.
É, nestas horas vemos o valor da tecnologia!


sonia delsin 


UMA MENSAGEM DO ALÉM

Tive um sonho numa destas últimas noites e agora resolvi contar.
Sonhei que estava com uma passagem comprada para a terra dos meus avós.
A vida toda desejei conhecer a Itália e a amo sem nunca ter estado lá.
Dentro deste meu sonho olhava para a fotografia do passaporte e dizia a mim mesma: Que sorte!
Estava empolgada e preparava a bagagem com cuidado para de nada me esquecer.
Levaria até um caderninho na minha bolsa porque sempre me vem a vontade de escrever.
Havia toda aquela expectativa que se tem na véspera de uma viagem.
Aí no meu sonhar entrou alguém que já partiu deste mundo. O meu pai querido, e ele me olhou com seu doce olhar.
Abriu os braços e me atirei neles buscando refúgio no seu peito.
Afundei o rosto entre seus abundantes pelos e chorei tanto que o ensopei.
As lágrimas não paravam de correr e eu já soluçava até.
Suas mãos calosas e tão gostosas acariciaram meus cabelos e minha face molhada.
Com os dedos ele enxugava meus olhos machucados e calado continuava me olhando.
Então não tinha mais passagem, nem viagem. Só tinha a vontade enorme de partir.
Tentei disfarçar toda minha dor e até um sorriso ensaiei.
Notei que eu estava usando a roupa que ele mais gostava de me ver vestindo e pra ficar ainda mais bonita tentei ajeitar os meus cabelos.
Ele sempre implicou tanto com minha rebelde cabeleira e no sonho eu ligava até para esta besteira.
Segurando-me bem forte ele falou e foi só uma frase: ─ Tudo vai dar certo, minha filha.
Senti vontade de chorar de novo, mas não o fiz.
Com voz determinada lhe prometi que saberia esperar. Falei que ia confiar. Assim se acabou meu sonho e acordei.
Fiquei deitada, olhando o nada em plena madrugada.
Chegou-me uma lembrança de meu filho mais velho me falando.
Mãe, onde você estiver as lembranças seguem com você.
Puxei o edredom pra me aquecer e esperei o amanhecer.
Seu conselho, pai, procurei acatar e agora eu sei que tudo vai se ajeitar. Até esta minha solidão vai se acabar.


sonia delsin 


UM TREM A CORRER

Hoje senti saudades dos tempos que eu andava de trem.
Eles corriam e o vento no meu rosto me fazia rir.
Sempre deixava a janelinha aberta, para que o ar entrasse.
Observava as montanhas que ficavam pra trás. As planícies, as estações, os lugarejos.
Observava bem as pessoas que desciam, as que entravam. Os usuários gostariam tanto como eu dos trens? Eu me perguntava. Ou só os utilizavam por necessidade?
Gostava deste meio de transporte e o usava sempre que podia, já que me dava alegria.
Tem presentes que devemos nos dar, para a vida mais agradável ficar.
Faz tempo que não me entrego um destes presentes: Andar de trem.
Por que não vou até a estação ferroviária e compro uma passagem para algum lugar? Apenas para sentir o prazer de novo.
Era tão gostoso.
Vou pensar bem nisso.
Posso fazê-lo perfeitamente.
E sei que quando estiver lá dentro do vagão vou estar contente.

Vai ser uma coisa diferente.

sonia delsin 


NA CALADA DA NOITE

Os dedos pousavam sobre as teclas do órgão.
Cada nota ressoava na imensa sala.
Na calada da noite o olhar ausente da bela mulher.
Parada, ela esperava cada som repercutir.
Só um pensamento lhe chegava: partir.
Mas para onde ir?
Tudo fora em vão. Todos os seus sonhos estavam caídos no chão.
A longa camisola de flanela a cobrir o corpo magro demais.
Ainda havia beleza nos traços delicados.
Partir... ir...ir...
Buscar a morte? Não... isto seria covardia.
Viver sem alegria?
Fechar o instrumento musical... Esquecer... Ganhar a rua.
Mas... de camisola? Sabia que se subisse a escadaria para se vestir, desistiria.
Encaminhando-se até a vidraça ficou a olhar uma lua pálida que dava um ar nostálgico ao seu pequeno jardim.
Uma ideia fixa aquela: Partir.
Longe; como dois faróis, os olhos de um gato, brilharam no escuro.
Neste instante o coração já virava um bumbo no peito.
Seria o gato de Marco? Ele teria voltado?
Marco! Marco!
As mãos se contraíam antes de chegarem ao peito.
Uma dor lancinante...
Não!!! Não!!!
Ela queria chamar pelo seu amado, mas a dor a emudecia.
O corpo escorregava, descia, descia e no chão se estendia; ao mesmo tempo que o gato a alcançava.
O dono um pouco atrás o acompanhava e corria para a mulher caída.

Ela já estava sem vida...

sonia delsin 


DONA VIDA

─ Olá, dona Vida. Eu sei que é a senhora. Como está? Estou feliz como pode ver. O sinal verde afinal... eu sabia. Esta porta que se abre para mim, dona Vida, eu sabia que um dia se abriria. Estava esperando. Eu sempre estive esperando. Nunca é demais o tempo que passamos esperando para realizar um sonho. Eu sempre acreditei. A senhora sabe. Foram anos de espera. A senhora conhece meus sonhos.
─ Eu sei, menina.
─ Não sou mais uma menina. O tempo passou...
─ Eu sei. Eu sei que não é mais uma menina. Mas no fundo é. Não morreram as luzes de seus olhos. Então é uma menina ainda. Como brilham! E vejo lágrimas neles agora. Não precisa chorar... eu sei que são lágrimas de alegria. Sorria e abrace seu sonho. Ele chegou!
─ Dona Vida. Levou um tempo enorme, mas eu sempre acreditei que um dia o sinal seria verde para mim e que as portas se abririam.
─ Os caminhos que você percorreu foram dolorosos muitas vezes. Muita dor e muitas lágrimas. Foram felizes em outros trechos e com que intensidade você viveu estes momentos também. Você esteve olhando tudo, semeando e colhendo flores. Sua vida foi um eterno semear e colher. Você esteve enfeitando um pouco o caminho por onde andou com palavras e risos. Chegou a sua hora. Esta porta já está aberta, é só caminhar por esta estrada que está à sua frente. Vai ser fácil? Não, não vai ser. Pagamos um preço por tudo. Até pelo viver. Vá, corra, menina! Aproveite este sinal aberto. É a sua hora agora. Vá...
─ Obrigada, dona Vida.
─ Não tem porque agradecer. Você fez por merecer.
─ Um beijo para a senhora.
─ E outro para você. Não se esqueça. Estou aqui a torcer. Você vai vencer.


sonia delsin 


O DIAMANTE

Certa vez alguém me disse uma frase que guardarei para o resto de meus dias.
Ele me disse que tinha nas mãos uma pérola de beleza ímpar e nunca soube valorizá-la.
Só descobriu o seu valor quando a perdeu.
Fui uma dolorosa perda infelizmente.
É, a vida é assim mesmo. As pessoas não sabem valorizar o tesouro que tem e quando descobrem é tão tarde.
Eu conheço um diamante de beleza incomum. Este diamante era uma pedra bruta e a vida o foi esculpindo lentamente. É evidente que o serviço ainda não está terminado.
A vida usa um formão para lapidá-lo. Vive a dar-lhe pancadas, porque é necessário e porque conhece o potencial da pedra.
É uma pena que muitas vezes ela é jogada no leito de um rio.
Quando lá dentro os raios de sol não a beijam e sua beleza fica ofuscada.
Quando a retiram do fundo das águas ela brilha novamente e é encantadora.
O dono desta pedra tinha os olhos vendados infelizmente e nem sabia que joia valiosa possuía em suas mãos... pois que a perdeu.


sonia delsin 


A FELICIDADE ESTÁ NAS PEQUENAS COISAS

Eu descansava deitada no sofá da sala enquanto cuidava de Duda.
Ela é uma criança calma e é extremamente agradável estar com ela.
Qualquer coisa a diverte. Adora os potes de louça onde minha mãe guarda bugigangas.
Ela despeja o conteúdo dos potes no tapete e se distrai assim.
Ora vai até o telefone. Pega o fone, faz de conta que está falando, o deposita de volta, bate palmas pra si mesma. Logo já está procurando outra coisa pra fazer.
Adora os porta-retratos. Manda beijos para o bisavô que não chegou a conhecer. Para os primos que moram distante.
Apesar de muito esperta são poucas as palavras que ela pronuncia, mas se faz entender perfeitamente com olhares e gestos.
Naquela manhã ela ficou comigo e eu simplesmente absorvia o prazer intenso de cuidar de uma criança depois de tantos anos.
Com a cabeça apoiada nas almofadas eu fingia dormir. Ela se aproximava devagarzinho e com as mãos minúsculas acariciava minha face.
Deslizava os dedinhos numa carícia tão espontânea.
Depois ela depositou um beijo leve no meu queixo.
Então não resisti. Parei de fingir que estava dormindo e a puxei para meu colo.
Pequena Eduarda, olhos encantadores.
Minha sobrinha neta!
Pensei que a felicidade está nas coisas pequeninas.
Naqueles momentos únicos.
Na ternura de duas mulheres com idades tão distantes.
A olho e recordo quando meu irmãozinho nasceu. Hoje ele é o avô de Duda. Se bem que o filho o fez avô bem jovem. Ele tinha apenas quarenta anos quando a neta lhe chegou.
Ela veio trazer tanta alegria. Enfeita a nossa vida de poesia.

É a esperança de um mundo melhor.

sonia delsin 


UMA ESTRADA FORA DESTE MUNDO

A vida os jogou um nos braços do outro porque ela tem toda a sapiência para aproximar  parceiros ideais.
Vasculhando todo canto ela encontrou uma mulher e lhe falou algo no ouvido. Esta compreendeu de pronto que havia chegado a hora, o momento.
O homem estava perdido em indagações e não entendeu de imediato o que lhe chegava.
Era um presente?
Ele estava tão descrente!
Os dois passaram a caminhar por uma nova estrada.
Uma estrada de perguntas e respostas.
Uma estrada de amor.
"Mas paralela à realidade"
As coisas pequenas importando tanto e tão pouco.
Acima das misérias humanas eles transcenderam.
Era uma estrada fora do mundo sim, mas uma estrada.
E os dois só conseguiram entender o significado muito tempo depois.
Podemos dizer que neste encontro houve perdas? Jamais. Foram só conquistas.
Foram tão proveitosas todas as conversas. As que aconteceram. E as que não aconteceram.
Os dois sabiam que se falavam nos silêncios profundos.
Eles conheciam suas buscas e sabiam das reformas que necessitavam.
Os dois jamais se perderiam porque tinham se encontrado para apagar toda a dor do passado.
Aparentemente estão distantes. Aparentemente...
No fundo nunca se afastaram.
No fundo ainda caminham no rastro da mesma estrela.
Embaixo deste céu quantos mistérios... quantos segredos!

A mulher os guarda no fundo do coração, porque sabe que é um cofre inviolável, que nunca, nunca será furtado.

sonia delsin 


FOI UM PESADELO?

Um homem sem rosto se aproximou de mim.
Em suas mãos trazia uma faca afiada.
Eu via aquela lâmina brilhando.
Ela vinha em minha direção.
Tudo era escuridão.
Por todo canto uma bruma dominava.
Ao longe, muito ao longe eu via umas luzes opacas.
Como os lampiões de antigamente.
Eu me sentia noutro país, noutra época.
Sabia ser eu. Sentia meu corpo todo trêmulo.
Sabia que meus cabelos e vestimentas estavam em desalinho.
A sensação era de que um monstro me atacava.
Imobilizada pelo pavor eu o via se aproximando, se aproximando.
Acordei e estava suando.
Devo ter gritado muito porque acordei completamente rouca.
O peito doendo tanto que cheguei a tocá-lo para confirmar se não havia um ferimento.
Espreguiçando na cama fiquei tentando captar o presente momento.
Tentei afastar as tensões que o pesadelo havia me provocado.
Fiquei ouvindo as vozes de uma manhã que acordava.
Aos céus eu ofertava o meu ser que renascia naquela manhã que despontava.
Claro que foi só um pesadelo. Aquela faca me feriu de morte numa outra era talvez, eu pensei...
Cruzes! Será esta uma recordação medonha que guardei?


sonia delsin 


COISAS GUARDADAS

Guardo ainda as pétalas das rosas daquele buquê tão lindo que você me ofereceu num dia tão especial.
Minha caixa de lembranças está lá guardada.
Sei que um dia vai ser jogada.
Guardo as cartas que me escreveu.
Os cartõezinhos que acompanhavam as flores.
Tem até um cartão antigo, daqueles que não se usa mais.
Tem uns bilhetinhos que falam de um amor tão grande.
Sua letra não mudou nada com os anos.
Sempre a mesma e tão bonita.
As flores.
Você sempre soube que sou louca por elas.
Que sou louca por beija-flores, por borboletas.
Por tudo que é pequenininho, bonitinho.
Sou louca por anjinhos, por duendes.
Por pedrinhas.
Por natureza.
Você sabe com o que eu me importo.
E sabe que dentro desta caixa tem um pedaço de meu coração guardado.
Você sabe que eu gosto de guardar as coisas que me recordam o passado, mesmo sabendo que tudo um dia será descartado.
Mas o passado na caixa parece que se mantém intocado.


sonia delsin 


A SOLIDÃO DE UMA FLOR...

O vento vinha acariciar aquela flor à beira do abismo. Ele a tocava e ela quase se encolhia. Era uma solitária flor a olhar o vale.
Naquela manhã ela observara um falcão a voar e revoar por perto. Estaria a procurar sua amada para acasalar?
Esqueci de contar que era uma romântica aquela flor que nasceu de uma semente que os ventos trouxeram... Ou foi uma ave que a depositou ali? Sabe-se lá como uma semente pode germinar entre as pedras, à beira do penhasco.
Suas pétalas macias e belas jamais seriam vistas e admiradas por olhares humanos e a flor era um tanto vaidosa.
Pensou: Por que não nasci num jardim bem frequentado? Por que não nasci uma rosa? Por que não posso estar exposta e minha beleza apreciada? Por que não posso ser amada?
Na solidão daquele lugar ela só podia ficar olhando as outras plantas, que estavam bem distantes dela, as aves, o horizonte...
Tão pouco, quase nada.
Isto a deprimia um pouco.
Quanto tempo duraria? O tempo do vento acariciá-la? Do orvalho cobri-la? De alguém descobri-la?
A flor pensava com seus botões: Nunca serei vista. O vento se fará mais forte e me jogará de encontro às pedras que me acolheram quando eu ainda era uma semente, um pensamento que todas as plantas contém dentro de si.
O falcão voltava a rodear o local. Ela ficou a olhá-lo e viu que já eram duas aves. Uma outra havia chegado. Eram dois pássaros a voar.
Ficou olhando-os e sonhando. Por que não nascera ave? Por que nascera condenada à solidão?
As aves voavam, revoavam e ela, em muda contemplação.
Mas não... Eles estavam vindo em sua direção.
De repente estava sendo amassada.
Não foi o vento que a desfolhou, nem nada. O pássaro resolveu fazer um ninho exatamente na sua morada.
A flor gemia em sua agonia.
Estava morrendo. Queria o vento a despetalá-la lentamente.
Queria morrer a olhar o vale. Não daquela forma sufocada.
A ave descontente voou e procurou outro lugar próximo dali. A flor suspirou. Morria, aos pouquinhos. O vento chegou quando ela já estava partindo. De certa forma a ajudou a morrer contente examinando o pássaro que a ferira. Examinando o mundo dos homens tão distante dela. O seu último pensamento foi para uma rosa que devia estar desabrochando em algum jardim.


 sonia delsin